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25.2.04

O futurismo de Evola e um verbete de Luciano de Maria 

Em "Futurisme et Futurismes" (Le Chemin Vert, Paris, 1986, pág. 68), surge um verbete da autoria de Luciano de Maria dedicado à obra de Evola. Curiosamente, o ano da morte do Mestre aparece errado, indicando o ano de 1984, exactamente uma década depois do desaparecimento do Barão. Aqui fica a nota e a respectiva ilustração:

Conhecido como teórico da direita tradicionalista e pelos seus estudos no domínio da história do hermetismo e do esoterismo religioso, Evola participa, cerca 1920, enquanto escritor e pintor, por um breve período, na aventura dadaísta: torna-se amigo de Tristan Tzara e colabora nas revistas de vanguarda, como «Dada», «Bleu» e «Noi».
É autor, entre outros, do pequeno poema «La parole obscure du paysage intérieur» e de um ensaio «Arte astratta» (1920) que contém importantes notas histórico-críticas, interessantes para a interpretação do futurismo. Quando Evola, por exemplo, fala de subjectivismo orgíaco e de um mergulho brutal a título de purificação, fornece as indicações precisas e preciosas para leitura das primeiras palavras livres marinettianas que encontramos em «Zang Tumb Tumb» de 1914.




20.2.04

Sobre as cinzas de uma amizade - Entrevista com Renato del Ponte 

Renato del Ponte é uma figura incontornável do evolianismo europeu. Fundador do Centro Studi Evoliani, de Gênes, em 1969, e editor das revistas «Arthos» e «Quaderni Evola», e, também, um dos principais animadores do movimento tradicionalista romano.

Renato del Ponte, o teu nome está estreitamente ligado ao de Julius Evola. Podes apresentar-te aos nossos leitores e precisar o que te levou a Evola e que relações mantiveste com ele?
Sou simplesmente um homem que sempre procurou dar à sua própria vida, tanto no plano existencial, político e cultural, uma linha de extrema coerência. É normal que nesta via, o meu itinerário tenha encontrado o de Evola que tinha feito da coerência, na vida como nos seus escritos, a sua palavra de ordem. Naturalmente, por razões conjunturais (Evola nasceu em 1898 e eu em 1944) o encontro físico só se pode produzir nos últimos anos da sua vida. As circunstâncias e as particularidades das nossas relações são desenvolvidas, em parte, na correspondência que trocámos a partir de 1969 até 1973.
Foram sempre relações muito cordiais, havendo da minha parte a vontade de criar uma rede organizacional que desse a conhecer o seu pensamento na Itália e no estrangeiro.

Foste tu que depositaste, no Monte Rosa, a urna que continha as cinzas de Evola. Podes contar-nos em que circunstâncias ocorreu?
Fui efectivamente eu e alguns fiéis amigos que assegurámos o transporte e o depósito das cinzas de Evola no Monte Rosa, a 4200 metros de altitude, no final de Agosto de 1974.
Para dizer a verdade, eu não era o executor testamentário das últimas vontades de Evola, mas tinha-lhe prometido, assim como ao nosso amigo comum Pierre Pascal, que estaria vigilante para que a sua vontade, relativa à sua sepultura, fosse correctamente executada.
Como Evola esperava, existiram graves e múltiplas negligências que me obrigaram a intervir e a proceder à inumação, com a ajuda de Eugéne David, que foi o guia alpino de Evola nas suas incursões ao Monte Rosa, nos anos 30. É impossível contar todas as peripécias, algumas particularmente romanescas, mas podem consultar a obra colectiva «Julius Evola, le visionnaire foudroyé» (Copernic, Paris, 1979) onde algumas são relatadas.

Para alguns o período do grupo de UR é o mais interessante de Evola. Parece que se mistura política para-fascista, ocultismo e arte moderna num inesperado e fascinante cocktail. É verdade? Como analisas esta fase da vida de Evola?
É impossível falar de forma breve do grupo UR e das suas actividades. Remeto-vos para o meu livro «Evola e il magico Grupp di Ur» (Sear Edizioni, Borzano, 1994). Limitar-me-ei a dizer que foi o período mais militante da vida de Evola. Isso, porque foi um período em que certas correntes esotéricas, que se reivindicavam da tradição romana, possuíam algumas esperanças concretas de influenciar o governo da Itália.
Mas esta fase da vida de Evola pode ser interpretada como uma tentativa, característica de toda a sua existência, de ultrapassar os limites das forças que condicionam a existência para criar algo de novo, ou de melhor, de voltar às condições mais normais da vida, segundo a Tradição.

(in «Lutte du Peuple», nº. 32, 1996)

19.2.04

Julius Evola no Palácio Galveias 

Em Maio de 1999, esteve patente no Palácio Galveias, em Lisboa, uma exposição subordinada ao tema «Futurismo e Aeropintura ? Arte em Itália, 1909-1944». A Câmara Municipal de Lisboa produziu um belo catálogo de 288 págs. com reproduções das obras expostas e as biografias dos artistas. Julius Evola esteve representado com duas pinturas, «La ninfa fogliasecca» (pág. 127) e «Mazzo di fiori» (pág. 128). O verbete biográfico (pág. 258) reza assim:

Julius Evola (Giulio Cesare Andrea) (Roma, 1898 ? Roma, 1974) Escritor e pintor
"Julius Evola liga o seu nome e a sua obra aos estudos no campo da história do hermetismo e do esoterismo religioso.
Impelido por uma grande curiosidade intelectual, Evola inseriu-se no movimento artístico de vanguarda romano, junto dos futuristas e influenciado por Balla, antes do conflito mundial.
Por volta do ano 1920, enquanto escritor e pintor, participa por um breve período, na aventura dadaísta: é amigo de Tristan Tzara e colabora nas revistas de vanguarda, como «Dada», «Bleu», «Noi».
Em 1920 tem lugar uma exposição individual na Casa d?Arte Bragaglia, subdividida em duas secções ligadas ao Futurismo e à experiência dadaísta.
Em 1922 participa no «Salon Dada» na Galia Montaigne de Paris.
É o autor do poemeto «La parole obscure du paysage intérieur» e de um ensaio «Arte abstracta» (1920) que contém importantes motivos histórico-críticos, válidos para a interpretação do Futurismo. Assim, quando Evola fala de subjectivismo orgíaco e de um mergulho brutal a título de purificação, fornece as indicações precisas e preciosas para leitura do primeiro paroliberismo marinettiano exemplificado em «Zang Tumb Tumb» de 1914."

La ninfa fogliasecca ? 1920-1921
Tinta e aguarela em papel, 20x16 cm ? Col. Particular, Roma


Mazzo di fiori ? 1917-1918
Pintura a óleo em cartolina, 50x50,5 cm ? Col. Particular, Roma


Como curiosidade adicional, o referido catálogo comporta três ensaios explicativos do Futurismo e da Aeropintura assinados por Stefano de Rosa (Comissário da Exposição), Massimo Carrà e Mario Verdone. Ao longo de 30 páginas não está escrita, uma única vez, a palavra fascismo. Nenhuma menção à militância dos artistas, apesar desta ser visível em várias obras expostas. Nenhuma alusão à relação Futurismo/Fascismo. Uma pista apenas: escreve Mario Verdone ... Gino Soggetti (...) pintor, este último, afastando-se do movimento em 1925, porque é antifascista e anárquico. O que permite ao leitor mais atento concluir que todos os outros não são, no mínimo, antifascistas.

18.2.04

Bibliografia (II) - Livros sobre Julius Evola editados em Portugal 

Lippi, Jean-Paul: Julius Evola (trad. de Pedro Sinde), Lisboa, Hugin (Colecção Quem sou eu?, ISBN: 972-8534-72-8), 2000.

Bibliografia (I) - Livros de Julius Evola editados em Portugal 

A Tradição Hermética nos seus símbolos, na sua doutrina e na sua régia (trad. de Maria Teresa Simões), Lisboa, Edições 70 (Colecção Esfinge nº 26), 1979.
Título original: La Tradizione Ermetica (1ª ed.: Bari, Laterza, 1931).

O Mistério do Graal (trad. de Maria Luísa Rodrigues de Freitas), Lisboa, Vega (Colecção Janus - Textos tradicionais nº 14), 1978; 2ª edição de 1993 (ISBN: 972-699-351-2).
Título original: Il mistero del Graal e la tradizione Ghibellina dell?Impero (1ª ed.: Bari, Laterza, 1937).

A metafísica do Sexo (trad. de Elisa Teixeira Pinto), Lisboa, Afrodite, Fernando Ribeiro de Mello, 1976.
Título original: Metafísica del Sesso (1ª ed.: Roma, Atanòr, 1958).

Revolta contra o Mundo Moderno (trad. de José Colaço Barreiros com breve nota sobre a vida e a obra de Julius Evola por Rafael Gomes Filipe), Lisboa, Dom Quixote (Colecção Tradição, nº 1, ISBN: 972-20-0676-2), 1989.
Título original: Rivolta contro il mondo moderno (1ª ed.: Milano, Hoepli, 1934).

Hierarquia e Democracia (obra escrita com René Guénon, com trad. de Daniel Gouveia e Júlio Prata Sequeira), Lisboa, Hugin (Colecção Dissidências nº 7, ISBN: 972-8534-30-2), 2001.
Título original: Gerarchia e democrazia (1ª ed.: Padova, 1970, Ed. di Ar).

Julius Evola: uma apresentação por Arnaud Guyot-Jeannin 

Grande figura aristocrática da direita tradicionalista italiana, Giulio Césare Andréa Evola (que adoptará o prenome Julius por admiração pela Roma antiga), nasceu em Roma a 19 de Maio de 1898, no seio de uma família da pequena nobreza siciliana. Iniciando os estudos de engenharia, rapidamente renuncia para se consagrar às artes e ao estudo das grandes doutrinas filosóficas. Aos 16 anos, com o começo da primeira guerra mundial, Evola parte para a frente de combate para ocupar o posto de oficial de artilharia. Beneficia desses breves instantes de liberdade para estudar a obra de Nietzsche, Otto Weininger, Carlo Michelstaedter, sem esquecer os filósofos franceses (Blondel, Lagneau, Lachelier...). Terminada a guerra, frequenta, de forma apaixonada, diversos movimentos culturais italianos onde se misturam poetas, pintores, dadaístas...

Ao período artístico (1915-1923) sucede-se o período filosófico (1923-1927). É desta forma que, em 1925, aparece o seu primeiro ensaio, «Ensaio sobre o idealismo mágico» seguido de «O Homem como potência», em 1926 (rebaptizado em 1949 como «O yoga tântrico, sobre o qual Marguerite Yourcenar dirá: Comprei uma daquelas obras que durante anos nos alimentam e, até um certo ponto, nos transporta). Evola consagra duas obras à sua visão antropológica do mundo: «Teoria do indivíduo absoluto» (1927) e «Fenomenologia do indivíduo absoluto» (1930). Entre ambas as publicações aparece «Imperialismo pagão» (1928). Obra violentamente anticristã, é editada no momento em que Mussolini e o regime fascista encetam fortes relações com a Igreja que culminarão com a assinatura dos acordos de Latrão, em 1929. Na sequência, e nomeadamente à luz da obra de René Guénon, Evola julga o «Imperialismo pagão» excessivamente anticristão, esperando que o mesmo não seja reeditado enquanto for vivo, apesar de continuar crítico pela ideia e pela atitude em relação ao cristianismo, sem por isso cair num anticlericalismo ridículo. Antes do aparecimento de «Imperialismo pagão», Evola já se tinha ilustrado na revista «Critica Fascista» de Giuseppe Bottai por um anticristianismo radical e um paganismo militante que não tinham agradado ao, muito oficial, "Osservatore Romano". Pelo contrário, o catolicismo medieval teve sempre o seu favor por ali encontrar uma espiritualidade heróica, solar, viril, integradora dos melhores elementos do antigo paganismo romano.

Director da revista «Ur» e posteriormente de «La Torre» integra-se num grupo de esoteristas: o Grupo de Ur. Pratica magia operativa, isto é, a ciência experimental do eu. É nestes anos que Evola começa a fazer as perigosas caminhadas de montanha. Torna-se rapidamente num alpinista de alto nível. «La Torre», largamente inspirada nas teses de Guido de Giorgio, autor da «Tradição Romana», cessa de aparecer em 15 de Junho de 1930 por ordem de alguns hierarcas fascistas, após a publicação de 10 números.

Mantendo o interesse pelo esoterismo Evola publica, em 1931, «A Tradição Hermética». Esta obra apaixonante é um estudo rigoroso sobre a corrente iniciática que se perpetuou na Idade Média, por detrás do paravento da procura alquímica.

Em 1932 surge o ensaio «Máscaras e rostos do espiritualismo contemporâneo» que denuncia o que Oswald Spengler chama segunda religiosidade e René Guénon contra-iniciação, isto é, espiritualidade de pacotilha (ocultismo de supermercado, seitas...). A teosofia, a antroposofia, o espiritismo e a psicanálise são passadas ao crivo da crítica evoliana: Ler as obras espiritualistas, frequentar os cenáculos dos teósofos, meditar sobre o «hóspede desconhecido» de Maeterlinck, fazer energicamente os seus vinte minutos de meditação quotidiana, encher-se de fé na reencarnação que permitirá a cada alma prosseguir a sua evolução numa nova existência onde alcançarão os frutos do bom karma humanitário ? tudo isto é, na verdade, um regime de auto-ajuda muito cómodo! Um livro visionário!

Dois anos mais tarde (1934), a publicação mais importante do Barão Evola, «Revolta Contra o Mundo Moderno», provoca grande agitação. As reacções são muito mitigadas. Enquanto o filósofo hegeliano Giovani Gentile, historicista e fascista convencido ? considerado como o filósofo do regime ? emitia uma opinião hostil sobre a obra ? por causa do pessimismo aristocrático que ali transparecia ? o romeno Mircea Eliade fala de um livro importante e profético. O poeta alemão Godfried Benn, na época aderente do nacional-socialismo, felicita o autor e não hesita em declarar-se transformado. «Revolta Contra o Mundo Moderno» é um estudo crítico da modernidade julgada à luz dos princípios eternos da Tradição. O livro comporta duas partes. Uma que se propõe, O mundo da Tradição, a definir as categorias e princípios fundamentais e essenciais das sociedades tradicionais (a realeza, o símbolo polar, a Lei, o Estado e o Império, a virilidade espiritual, a iniciação e o sagrado, a cavalaria, as castas, a ascese...). A outra, Génese e rosto do mundo moderno, que desenvolve uma metafísica da história fundamentada sobre a polaridade masculino-feminino, tomando as palavras de Philippe Baillet, prefaciador, tradutor da reedição, e especialista incontestado de Julius Evola e do tradicionalismo integral. Esta parte expõe a doutrina das quatro idades, o antagonismo Tradição-Antitradição, nacionalismo-colectivismo, americanismo-bolchevismo. «Revolta Contra o Mundo Moderno» é uma obra de referência para aquele que quer romper definitivamente com o progressismo burguês.

O ano de 1937 é marcado pelo aparecimento de duas obras: «O Mistério do Graal» onde Evola estuda os principais fundamentos históricos da tradição gibelina e «O Mito do Sangue» que constitui uma antologia das teorias racistas. Quando estala a Segunda Guerra Mundial Evola instala-se em Viena. Em 1941 publica «Sínteses e doutrinas da raça» livro que tenta definir positivamente uma raça do espírito por oposição aos critérios biológicos da época. Aí afirma: As raças puras, no sentido absoluto, não existem actualmente senão em raros indivíduos. Isso não impede que o conceito de raça pura seja tomado como um ponto de referência, mas em termos de ideal e de objectivo a atingir. Estas ideias não agradam nada aos dirigentes do Partido Nacional Fascista e à revista Diffesa de la Razza ? da qual o chefe de radacção é Giorgio Almirante, futuro Secretário-Geral do Movimento Social Italiano (MSI) ? que exalta a raça italiana numa concepção estritamente biológica. Benito Mussolini declara-se em sintonia com as ideias de Evola. No entanto, a oposição do racismo evoliano (racismo do espírito) ao racismo biológico é ambivalente. Com efeito, através de alguns artigos do pós-guerra, Evola critica os povos da África negra, a mestiçagem racial e a negritude americana. A ambivalência provém do facto que Evola, segundo os textos e as circunstâncias, refere-se ora à Tradição Universal preconizada por pensadores da Tradição como René Guénon, Ananda Coomaraswamy ou Frihjof Schuon, ora unicamente à Tradição europeia. Se Evola tem razão em estigmatizar a indiferenciação, também devia, em coerência, desejar que os países do terceiro Mundo se preservassem da ocidentalização mercantil americanocentrada. Não só não faz isso como cai na armadilha de um etnocentrismo racial europeu que não tem a sua razão de ser numa filosofia tradicional onde se deve exaltar não a espiritualidade para si mas a espiritualidade em si. Universalidade oblige! No mesmo ano, a editora vienense Scholl, publica uma pequena obra, com uma conferência pronunciada em alemão por Evola, em 7 de Dezembro de 1940, no Palácio Zuccari, em Roma, com o título de «A Doutrina de Luta e de Combate pela Vitória».

Em 1943, junta-se à República de Saló, mais por fidelidade a Mussolini que por alinhamento ideológico. Nesse ano publica uma obra sobre a ascese budista, «A doutrina do despertar». Para ele, o budismo caracteriza-se por uma intensidade espiritual inultrapassável, uma vontade de poder, para retomar a expressão nietzschiana, levada ao paradoxo da metafísica conhecedora. Dois anos mais tarde, ainda em Viena, escapa por pouco à morte, durante um bombardeamento, ficando paralizado das duas pernas. Evola gostava de repetir frequentemente: Nunca se esquivar e mesmo procurar o perigo quase no sentido de uma silenciosa interrogação do destino.

Evola regressa a Roma em 1948. Em 1950 aparece «Orientações». Esta pequena e entusiasmática obra, completada e rectificada por uma segunda edição em 1970, destina-se à juventude europeia. Os temas abordados são os mais variados: requisitório contra o primado da economia, condenação das democracias mercantis (Estados Unidos) e populares (União Soviética), crítica implacável do materialismo marxista-liberal, rejeição do nacionalismo, fidelidade à Ideia e, finalmente, adopção de um discurso tradicionalista elitista que visa a formação de um homem novo.

Sempre disposto a desempoeirar as ideias e a dar uma doutrina séria, rigorosa e sem concessões, aos jovens do MSI, Evola escreve, em 1953, «Homens entre as Ruínas», onde propõe uma doutrina de Estado baseada na ideia de organicidade. Este Estado orgânico está nos antípodas do individualismo liberal e do socialismo colectivista: As hipóteses da acção revolucionária conservadora dependem essencialmente na medida na qual a ideia oposta, isto é a ideia tradicional, aristocrática e antiproletária, pode, também ela, juntar-se a este plano existencial para dar origem a um novo realismo e, agindo como «visão de mundo», modelar um tipo específico de antiburguês, substância celular das novas elites; para além da crise de todos os valores individualistas e irrealistas. Se «Homens entre as Ruínas» teve uma grande influência na juventude de direita radical italiana, pelo contrário, não teve nenhuma incidência nas instâncias dirigentes do MSI, inclinadas que estavam numa esclerose passadista e romântica do fascismo histórico.

Em 1958 é publicado «Metafísica do Sexo». Evola estuda a função significativa do sexo masculino e feminino à luz das doutrinas tradicionais do oriente e do ocidente. A tese avançada por Evola é que o mundo moderno quebrou as verdadeiras potencialidades transcendentes do homem e da mulher. Trata de reabilitar-se a verdadeira metafísica do sexo, ou seja, reencontrar a unidade na diferenciação ontológica dos sexos e da verdadeira sexualidade. Argumentado sobre sólidas leituras que tratam da sexualidade ? nomeadamente «Sexo e Carácter» de Otto Weininger ?, «Metafísica do Sexo» representa uma das obras capitais de Julius Evola.

No início dos anos 60, aparece o livro pior compreendido de Evola: «Cavalgar o Tigre». Como muito bem escreveu o seu amigo Adriano Romualdi: «Cavalgar o Tigre» é um breviário daquele que tem de viver num mundo que não é o seu sem se deixar influenciar por ele, seguro da sua invulnerabilidade. Com efeito, Evola exprime a ideia segundo a qual não só é necessário impedir o tigre (forças de dissolução) de nos saltar para a garganta, mas também, estando montados sobre o animal, termos finalmente razão. Não se trata, portanto, para o homem diferenciado de fugir do perigo (tigre), mas de destemor (cavalgar) para o anular (domesticar). Evola predica um niilismo activo que tem pouco a ver com o possibilitismo reaccionário-conservador de «Homens entre as Ruínas». Marxismo, democratismo liberal, existencialismo, racionalismo, vitalismo prometaico, nacionalismo patrioteiro, feminismo emancipatório, jazz e música pop, crispação burguesa no casamento e na família moderna... são alguns dos temas que Evola estuda e crítica à luz dos ensinamentos doutrinais do pensamento tradicional.

As suas memórias autobiográficas são na realidade as memórias autobibliográficas, porque praticando a impersonalidade activa mostra-se pouco, aparecendo em 1963 sob o título de «O Caminho do Cinábrio». Ali evoca os seus vários livros, influências e encontros que o marcaram.

O cinábrio é o sulfureto vermelho do mercúrio, composto no qual se reconhece os dois elementos de base da alquimia universal: o enxofre e o mercúrio (...). É por excelência a droga da imortalidade, se for vermelha (cor fausta e cor de sangue) dizem-nos J. Chevalier e A Gheerbant.

Em 1964 aparece «O Fascismo visto da Direita, seguido de Notas sobre o Terceiro Reich»: Sem qualquer romantismo nostálgico e sentimentalista, esta crítica do fascismo não visa defendê-lo nem denegri-lo sistematicamente. Combatendo os ideais de 1789 em nome da grande tradição política europeia, Evola lamenta que o fascismo não se tenha inspirado nos princípios que teriam servido para a elaboração de uma verdadeira contra-revolução integral. O fascismo parece-lhe cheio de elementos burgueses, populistas, centralistas e totalitários. Recusa a ideia de um partido único que é, segundo ele, um Estado dentro do Estado e que não tem razão de existir num regime autenticamente antidemocrático. É preciso lembrar para a pequena história que Evola nunca pertenceu a nenhum partido e que, por causa disso, o seu pedido para ir combater o bolchevismo, na frente Leste, foi recusado. Evola mostra-se, também, muito crítico do materialismo biológico veiculado pelo nacional-socialismo.

Prosseguindo infatigavelmente o seu trabalho doutrinário, Evola escreve numerosos textos que serão posteriormente publicados sobre a forma de colectâneas de textos («Meditação do cimo dos cumes», «Escritos sobre a Franco-Maçonaria», «O Arco e a Clava», «Elementos para uma educação racial», «Ensaios Políticos»... ). Falece em 11 de Junho de 1974, com 76 anos, no seu domicílio de Corso Vittorio Emanuele, em Roma. Um grande espírito tinha acabado de se apagar.

Sobre os Cadernos Evolianos 

Lamentavelmente desconhecido da esmagadora maioria do público português, Julius Evola é um dos grandes nomes do século XX, seja nas artes, nas letras ou nas ideias. Acresce que é Evola muito justamente considerado uma das referências incontornáveis do pensamento tradicional, o que não tem sido por si só suficiente para que em Portugal, editoras, programadores culturais ou jornalistas lhe concedam a merecida e justificada atenção. Servem pois estes cadernos - e outra pretensão não lhes deverá ser imputada ? para tentar aproximar o público do Homem e da Obra. Restam duas breves notas:
1. Este não é um blogue de acordo com a universalização do conceito, dado tratar-se de um espaço de actualização naturalmente irregular e de modo algum voltado para o efémero do quotidiano.
2. A frase ?blogue de expressões várias e tradição una?, que se encontra no topo da página, junto ao desenho de Evola (da autoria de Giovanni Conti), não aparece aqui caída do céu. Era esse o subtítulo da revista ?A Torre? ? com a natural excepção da palavra "blogue" ? animada por Evola e da qual se chegaram a publicar 10 números.

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