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15.4.04

Apontamentos sobre Julius Evola, de António José de Brito (1) 

Da autoria do Professor Doutor António José de Brito, seguem-se uns Apontamentos sobre Julius Evola cuja divulgação, por de um blogue - apesar de tudo - se tratar, será dividida em duas partes, motivo pelo qual me penitencio perante aqueles que desejavam ler o texto de uma só vez. A segunda parte destas reflexões será publicada amanhã. Resta dar conta de que este texto terá sido originalmente publicado no jornal "Política", corria o ano de 1970, desconhecendo-se com exactidão o número em que foi publicado. Aqui fica:

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Se há hoje, no ambiente intelectual da direita italiana, um pensador quase unanimemente respeitado e conhecido (embora nem sempre seguido) esse pensador é Julius Evola. O jovem escritor Giano Accame, num interessante estudo acerca do livro de Paul Sérant intitulado Romantisme Fasciste, observava que o pensamento de Evola não foi tomado muito a sério durante o vinténio mussoliniano [1]. E compreende-se! Evola, dadas as suas afinidades com o esoterismo, na sua invocação duma tradição milenária vinda do alto, os seus estudo sobre a magia, não devia ser grandemente compreendido numa época dominada, essencialmente, pela controvérsia em torno do idealismo, e onde as atenções se centrava, à volta de um filósofo de primeiro plano ? Giovanni Gentile ? que um sem número de intelectuais, dentro e fora do regime, atacava com fúria, enquanto outros o defendiam com entusiasmo.
De resto, não faltavam teóricos ortodoxos e fervorosos, incapazes na altura de se desviarem um milímetro dos princípios doutrinários formulados pelo Duce (aliás coadjuvado pelo autor da Teoria generale dello spirito come atto puro), no célebre artigo da Enciclopédia Italiana (Fascismo) e, ao pé deles, Evola, que não deixava de se mostrar reticente num ou noutro ponto, fazia figura de heterodoxo, ou pelo menos de moderado, assim se explicando que a sua figura se mantivesse numa discreta penumbra.
Após 1945, porém, os teóricos ortodoxos e fervorosos sumiram-se pela caixa do ponto para reaparecerem, bastantes deles, pintalgados com as cores demo-cristãs ou comunistas, ao passos que outros, desanimados e amargurados, cultivavam tão só o próprio desânimo e amargura. Sucedeu o contrário com Julius Evola, a quem os acontecimentos, em vez de o perturbarem e abalarem, como que firmaram a sua fé. E, acalmadas as querelas entre idealistas e anti-idealistas na atmosfera de problematicismo especulativo [2] que sucedeu ao fim da conflagração, fixaram-se, então, bastantes olhares naquele pensador isolado que, contra ventos e marés, continuava, inflexivelmente, fiel às suas teorias e com rude intransigência persistia na sua firme posição de «revolta contra o mundo moderno». Pouco a pouco o prestígio de Evola foi-se firmando e crescendo, entre quantos se recusavam a prestar reverência aos ídolos do momento e nele encontravam um duro e exigente mestre.
A explicar também o actual aumento da fama e influência de Julius Evola está o facto de, em nossa opinião, as suas obras mais notáveis serem do período posterior à derrocada da Itália e da Europa. Não conhecemos, exaustivamente, o conjunto dos seus trabalhos anteriores ou subsequentes à queda do Estado Fascista. Em todo o caso, dentre livros que lemos, aqueles que foram escritos antes da guerra, v.g. Maschera e volto delle spiritualismo contemporaneo, Il mito del sangue, Rivolta contra il mondo moderno, revelam-se de muito menor interesse e, até de tonus intelectual inferior, ao dos publicados depois como Gli uomini e le rovine, Metafisica del sesso, Calvacare la tigre. Cremos que o melhor de Evola é o dos últimos vinte anos, sem que isto signifique, no entanto, que haja qualquer solução de continuidade no evoluir do seu pensamento.
Engana-se quem imaginar que o autor de Il mistere del Graal não passa de um saudosista impenitente da época de Benito Mussolini e que os seus derradeiros ensaios constituem, pura e simplesmente, «apologia do Fascismo» (delito perigosíssimo, punido por uma lei sábia e justa). Começamos por afirmar, talvez causando surpresa, que Evola, em certa ocasião, chegou a reconhecer que foi Gentile (ao qual vota um injusto desprezo) o filósofo «especificadamente fascista» [3]. Ele situa-se noutro plano de que chama tradicionalismo, um tradicionalismo assaz diferente do que em Portugal ou na França se designa com esse nome e que pouco tem a ver com as concepções de um Bourget, de um Maurras, do integralismo, etc.
A tradição, para Evola, não consiste no conceito meramente formal (não se veja nisto uma crítica) de continuidade ou permanência no movimento, sendo, antes, um conjunto material de princípios eternos e supra-humanos imanentes no fluir dos tempos [4] e que é a manifestação de uma transcendência espiritual de valor incondicionado, situada acima até, da distinção entre ser e não ser [5]. É a tradição esotérica, que se perde no mistério das origens. Tomada no seu aspecto ético-político concreto, a tradição postula, primordialmente, o movimento para o alto, para o Transcendente.
Esse movimento começa por exigir o desenvolvimento do ser de todas as pessoas na sua especificidade própria, visto que na singularidade de cada um se projectar, sempre, algo da infinita riqueza do Princípio Supremo. A seguir, impõe-se que cada um se insira voluntariamente numa hierarquia de subordinação face àquelas outras pessoas cujo ser seja mais pleno e mais perfeito, hierarquia que culmina na «personalidade absoluta» ou supra-individualidade, máxima universalização, em que se encarna o Império, a soberania, e que é elemento de unidade, enquanto fim derradeiro dos diversos tipos de personalidade inferior, a que estes se devem ordenar com obediência a acatamento. A personalidade absoluta liga já a esfera do mundo com o puro domínio da transcendência [6].

Notas:
1 ? Gustavo Bentadini, Dal`attualismo al problemtticismo, La Scuola ed., Brescia, 1960, págs. 6, 155 e segs.
2 ? Cfr. o volume Giovanni Gentile a cura de Vittorio Vettori, La Fenice ed., Florença, 1954, pág. 6.
3 ? Julius Evola, Gli uomini e le rovine, Edizioni del`Ascia, Roma, 1953, pág. 21.
4 ? Julius Evola, A doutrina do Despertar, trad. francesa de Pierre Pascal, Edit. Adyar, Paris, 1956, pág. 164; Julius Evola, Gli uomini e le rovine, cit., pág. 28/29, 50/51; Rivolta contra il mondo moderno, Fratelli Bocca ed., Milão, 1951, págs. 29-30.
5 ? Julius Evola, Gli uomini e le rovine cit., pág. 46.
6 ? Julius Evola, Gli uomini e le rovine cit., pág. 45.

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