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16.4.04

Apontamentos sobre Julius Evola, de António José de Brito (2) 

Evola, evidentemente, repudia o personalismo moderno, a «eminente dignidade da pessoa humana» de que falam tantos fariseus [7]. Quando alude à pessoa, começa, logo por dizer que perfilha a tese da desigualdade radical das pessoas [8]. Se julga conveniente que as várias pessoas se desenvolvam no que tem de singularmente seu, é sempre com a finalidade de as integrar numa ordenação hierárquica vertical, dirigida para cima, que só funciona e existe em função das diferenças pessoais (hierarquizar é diferenciar). Semelhantes diferenciações, correspondendo no tocante ao ser, a um destacar-se do indefinido, representam, no entender de Evola, manifestações de profunda espiritualização e valorização. Com efeito, quase à maneira de Platão, ele perfilha um realismo idealista, assevera a existência real dum reino das ideias para além do visível, mundo que constitui a plenitude ontológica e axiológica. Por isso, para Evola, se alguém põe a sua personalidade em destaque, subindo na esfera do ontos, eleva-se, igualmente, na esfera ideal, espiritualiza-se. O grande mal é não emergir do domínio cinzento em que tudo é igual, indiferenciável, o domínio material do empírico.
Mas é óbvio que uma personalidade, ao destacar-se, está a distinguir-se das restantes e a admitir, assim, que possam umas estar abaixo, outras acima de si, no que diz respeito à sua relação ao princípio supra-pessoal supremo. Numa palavra: se não há hierarquia sem diferenciações não há hierarquia que não seja unificada, soberanamente, no cimo [9]. É essa ordem hierárquica, a concepção de carácter visivelmente sacral, dado que a supra-personalidade dominadora recebe inspiração do Transcendente, como intermediária entre o sensível e o supra-sensível. Daí o gibelinismo de Evola, e seu desejo de restauração de um Império que, enquanto tal, seja algo de místico e religioso [10].
Todo este património ideológico, se tem, por certo, afinidades com o Fascismo na teorização da hierarquia e no resoluto apreço pelo Estado orgânico e pelo Imperium, afasta-se, contudo, em muito, de algumas concepções reinantes no vinténio, sendo Evola o primeiro a sublinhá-lo com insistência. Ele pretende, unicamente, situar o Fascismo no quadro do que chama o pensamento tradicional, aprovando nele o que se coadunar com tal pensamento e repelindo o resto. Uma tal destrinça entre o vivo e o morto no Fascismo é o conteúdo v.g. do opúsculo Orientamenti e dum sensacional artigo na revista Ordine Nuovo, intitulado Il Fascismo e l`idea politica tradizionale [11], depois ampliado às proporções de livro.
Concordemos ou não com os pontos de vista do escritor de Imperialismo pagano [12], o que não é possível é deixar de reconhecer-lhe uma forte originalidade. Algumas antinomias que traça, são, porém, a nosso ver insubsistentes: por exemplo, ele estabelece uma antítese entre a sua doutrina do Estado hierárquico e orgânico e algumas teses totalitárias e estatolátricas que sustenta encontrarem-se no célebre lema do Duce, «tudo no Estado, nada contra o Estado, e nada fora do Estado» [13]. Todavia se, usando as expressões de Evola, no «Estado orgânico... um símbolo de soberania, com um correspondente, positivo, princípio de autoridade, constitui a base e a força animadora, e com ele, quase por uma espontânea gravitação, os corpos sociais se encontram em sinergia; embora conservando a sua autonomia, desenvolvem eles actividades convergentes numa única direcção fundamental» [14], pergunta-se: concebe-se, neste caso, algo que se erga contra, ou se ponha de fora do âmbito dessa força animadora que é o símbolo da soberania? Não. E existirá, portanto, algo contra ou fora do Estado? Obviamente não. E nada havendo contra e fora do Estado, então «tudo no Estado, nada contra o Estado e nada fora do Estado». De resto, o Estado totalitário ou Estado ético, coisa alguma possuiu de nivelador, de tipicamente uniformizador, no estilo de um reformatório, consoante pretende Evola15, antes por definição implica diferenciações, hierarquia, visto que, na sua ideia (tal e qual a expõem os teóricos) é universalização e unificação do particular e do múltiplo, logo elevação do particular e do múltiplo acima de si mesmos embora sem os destruir. Nestas condições, aceita-se o que distingue entre si os elementos múltiplos e particulares, e ipso facto, se ordena estes mesmos em hierarquia, no seio do Uno e do Universal concreto. Nenhuma outra tendência se encontra nos grandes textos legislativos do Fascismo nem na sua mitologia política.
Não obstam contudo divergências desse género a que consideremos Julius Evola um curioso pensador, de metálico arcabouço, inimigo do lugar-comum e da vulgaridade mental, cuja ética merece atenta consideração.
Um dos seus derradeiros livros ? Cavalcare la Tigre ? é uma implacável crítica do ambiente contemporâneo, em especial nos seus aspectos intelectuais (existencialismo, relativismo, etc.). Desiludido um tanto da política, embora reafirme as suas ideias, Evola traça-nos um útil roteiro de completo repúdio interior das grosseiras formas que nos cercam, por meio do qual poderão preservar-se os valores eternos que venham a moldar, para futuro mais propício, as estruturas renovadas de um verdadeiro Estado. É a isso que chama, socorrendo-se de velha metáfora indiana, cavalgar o tigre, quer dizer, ultrapassar, desdenhando-a interiormente, a torrente dos acontecimentos torpes, vis, nauseantes e reles da actualidade, para aguardar, com firmeza, a hora em que a fera se fatigue e a possamos, enfim, domar. Não aceitamos a solução de Evola como única e exclusiva; achamos, sem dúvida, que, no combate que jamais se deve abandonar, é indispensável, na verdade, uma certa atitude de desprendimento íntimo, de não participação face ao fluxo dos eventos, sem o que as derrotas no domínio histórico positivo nos abalariam até ao âmago e nos tirariam a força para prosseguir na batalha. Cavalgar o tigre sim, mas nunca para apenas esperar um instante favorável (que talvez jamais surja), antes procurando criá-lo constantemente, se falhe e nada mais venha a restar senão oferecer a própria vida num esforço derradeiro.

(António José de Brito)

Notas:
7 ? Julius Evola, Gli uomini e le rovine cit., págs. 44 em nota, 45, 50, 51; Rivolta contra il mondo moderno cit., págs. 25/28.
8 ? Julius Evola, Rivolta contra il mondo moderno cit., págs. 52 e segs; Gli uomini e le rovine cit., págs. 138-139.
9 ? In Ordine Nuovo, n.º 3, ano IV. Março de 1958, págs. 134 e segs.
10 ? Que uma transcendência acima do ser e do nada possa manifestar-se na história como tradição, encontrando-se até imanente no tempo, é uma aporia insuperável em que se debate o pensamento de Evola. Manifesta este também um fundo desprezo pela filosofia (Cfr. Rivolta contra il mondo moderno cit., pág. 348; A Doutrina do Despertar cit., págs. 77/78) que é abertamente contraditório porquanto renegar a filosofia não senão filosofar ainda.
11 ? Julius Evola, Gli uomini e le rovine cit., págs. 62 e segs.
12 ? Julius Evola, Il Fascismo e l`idea politica tradizionale cit., pág. 139.
13 ? Julius Evola, Gli uomini e le rovine cit., pág. 63.
14 ? Julius Evola, Il Fascismo e l`idea politica tradizionale cit., pág. 133; Gli uomini e le rovine cit., pág. 66.

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